Novo curso “Diminuir para somar: capacitação em redução de danos sobre álcool e outras drogas” visa a ajudar os agentes comunitários de saúde a melhorar a abordagem de usuários de drogas e o prosseguimento dos casos.

Por Andrea Domínguez

No seu trabalho cotidiano, os agentes comunitários de saúde (ACS), componentes das equipes de Saúde da Família, têm percebido que o uso abusivo de álcool, maconha, cocaína e crack faz parte do cotidiano de muitos moradores das comunidades atendidas. Na realidade, as drogas estão presentes no dia-a-dia das famílias assim como outros problemas de saúde, como a diabetes, a tuberculose, a dengue e as doenças cardíacas. Só que, por ser um tema tabu, as pessoas não tratam do assunto.

Segundo Fabiana Lustosa, coordenadora psicossocial da Viva Comunidade, o tema do uso de drogas precisa de mais atenção nas comunidades. “As pessoas que usam álcool e outras drogas estão aí e os ACS muitas vezes até as cadastram como pacientes, mas a problemática das drogas acaba sendo colocada de lado. Os ACS abordam as outras patologias, mas não perguntam sobre o problema de álcool”, explica a psicóloga.

Diante deste contexto, surge a questão: será que os ACS estão preparados para lidar com o tema da dependência química e as dificuldades e impasses aí envolvidos? A resposta é não. Mas por pouco tempo. A organização social de saúde Viva Comunidade, em parceria com a Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil (SMSDC) do Rio de Janeiro, desenvolveu o curso “Diminuir para somar: capacitação em redução de danos sobre álcool e outras drogas”, especificamente pensado para os ACS.

A Coordenadora de Saúde Mental do município do Rio, Pilar Belmonte, explica que o objetivo é capacitar todos os ACS como redutores de danos, fornecendo as ferramentas necessárias para que eles consigam lidar com os múltiplos casos de abuso de álcool e outras drogas nas comunidades. “Em uma primeira fase capacitaremos 50% dos agentes, mas a idéia é que com o tempo todos eles virem redutores de danos”, frisa Pilar.

O primeiro passo para fornecer aos ACS as ferramentas para lidar com essa questão foi a cartilha de redução de danos “Diminuir para somar”, lançada em abril desse ano. A segunda ação é este curso, cuja primeira turma teve início neste mês de agosto, que busca ajudar os ACS a internalizar os princípios básicos da redução de danos.

Neste primeiro momento, 210 agentes participarão do curso. Estes profissionais pertencem à área 3.3 do Rio de Janeiro, que possui o maior número de bairros na cidade (29 no total) e uma população de 965.000 habitantes, de acordo com o censo de 2006. “A gente pensou em começar com a área 3.3 justamente por ser a área com menos recursos com relação ao tema de álcool e drogas e também a mais carente sob o ponto de vista socioeconômico – possui o segundo IDH mais baixo da cidade”, afirma Fabiana.

Dos três Centros de Atenção Psicosocial de Álcool e Outras Drogas (CAPS-AD) que existem no município do Rio de Janeiro, nenhum se encontra na área 3.3. “É claro que a área precisa de equipamentos especializados, porém, um dos aspectos que almejamos é estimular atitudes mais proativas pelo ACS. À medida que eles começam a discutir estas questões nas suas reuniões de equipe e, consequentemente, passam a levar as necessidades identificadas aos fóruns, eles fomentam a discussão bem como a criação de estratégias para lidar com os problemas. Mas não é só isso o que procuramos. Queremos que os ACS ampliem sua visão e tenham melhores ferramentas para atender os problemas de álcool e outras drogas dentro das suas equipes, sem necessariamente precisar referir os casos aos especialistas”, frisa Fabiana.

Parar para pensar

Os conteúdos do curso foram desenvolvidos com a assessoria de três especialistas no tema. Um deles é a psicóloga e mestre em Educação Christiane Sampaio, que faz parte da Associação Carioca de Redutores de Danos e trabalha tanto na área de pesquisa, quanto no campo.

“Para vocês, o chope é uma droga, um veneno, um remédio ou nenhuma das anteriores?”, pergunta Christiane aos agentes na primeira aula, numa tentativa de desmistificar o conceito de drogas. De todos os cantos da sala chegam respostas e risos: “é um remédio pra minhas tristezas!”; “é veneno, não posso beber”; “é droga, sim, meu marido é viciado em chope e churrasco”; “não é nada disso, não, é um refresco”.

Com um exercício simples, Christiane trabalha as generalizações, os preconceitos, o senso comum e os rótulos que norteiam não só as atitudes dos alunos, mas também da maioria das pessoas. Para ela, que já esteve à frente de trabalhos com usuários de drogas, realizando abordagens ou acompanhamentos clínicos, a formação dos ACS sobre a temática das drogas é fundamental.

“O ACS é o principal apoio dos médicos e psicólogos no campo porque ele tem a capacidade de atender aos usuários de drogas no próprio espaço comunitário e pode incorporar a pessoa não só ao tratamento do uso de drogas, mas ao cuidado da saúde em geral. Em outras palavras, o ACS pode ser alguém que faz o elo de ligação entre esses usuários de drogas e o próprio serviço de saúde mental”, explica.

Além de desconstruir os mitos e rótulos relacionados aos usuários de drogas, os ACS serão orientados para melhorar a abordagem a este público. Eles aprenderão, por exemplo, como oferecer um melhor acompanhamento e conhecer as diferentes opções de encaminhamento para aqueles usuários que precisam de outros serviços, sejam eles ambulatórios especializados ou grupos de mútuo apoio.

Fabiana explica que, num primeiro momento, a ideia é desmistificar o conceito de redução de danos, que ainda não é bem compreendido por muitos. “As pessoas têm dificuldade de entender o que é redução de danos, visualizam apenas a distribuição de insumos para que os dependentes façam um uso menos prejudicial. O que queremos é mostrar que é possível realizar redução de danos dentro da Estratégia Saúde da Família. Não é um trabalho que tem de ficar restrito aos especialistas”, explica a psicóloga.

Já Christiane Sampaio diz que está apresentando para os ACS um conceito de redução de danos como uma forma de enxergar o uso das drogas e não apenas como uma ação sanitarista de diminuir riscos. “A redução de danos é uma forma de olhar a questão das drogas de uma forma mais reflexiva, menos autorreferenciada, mais compartilhada com esse outro que é o usuário”, frisa a especialista.

Pilar explica que a redução de danos é uma ferramenta muito útil para o trabalho dos ACS porque ela não condiciona a atenção do paciente à abstinência absoluta da droga, como ocorre nas comunidades terapêuticas ou outros dispositivos.

“A redução de danos começa a tratar o paciente sem colocar condições e o enxerga como um ser integral; não como um ser drogado, mas como alguém que usa uma droga. O redutor de danos lida com as questões de saúde do sujeito e constroi uma relação de confiança com ele para”, explica a Pilar.

Outro profissional que assessorou a criação do curso é o psicólogo Ary Fialho de Menezes, da Secretaria Municipal de Saúde, que trabalha com usuários de drogas na Policlínica Carlos Alberto Nascimento, na Zona Oeste do Rio. Para Ary, a redução de danos historicamente tem se mostrado como uma metodologia que pode ser aproveitada em programas implementados na comunidade.

“Os próprios programas de redução de danos têm, em suas origens, um foco muito forte no trabalho dentro da comunidade”. Ary explica que, como os agentes já estão inseridos na comunidade, inclusive de uma forma até afetiva, são pessoas que podem aplicar a metodologia da redução de danos no seu próprio trabalho.

Sem dúvida nenhuma

Para os ACS não há duvidas sobre a importância de aprender a lidar com esse tema. Luciana dos Reis trabalha como Agente Comunitária de Saúde há seis anos no CMS Carlos Cruz Lima e reconhece que o tema é muito importante para o trabalho dos ACS. “Tem muito uso de álcool, muito uso de crack, mas eles não assumem. Ficam com vergonha, saem de casa, vão embora para usar em outros lugares. A gente fica sabendo pela família, só que não conseguimos acompanhar os casos”, conta.

Tatiane Maria, que trabalha na mesma unidade, explica que, além dos usuários de álcool e outras drogas nas famílias atendidas por elas, também há o uso de crack por parte dos moradores de rua. “As pessoas costumam pedir camisinha. Assim, através desse contato a gente tenta levá-los para a unidade, porque lá tem tratamento odontológico e consulta médica”, explica.

Na última fase do curso, os ACS poderão compartilhar casos concretos com a turma e os professores e poderão analisar as possibilidades de cada um para ver, na prática, como poderiam começar a ser aplicados os conteúdos do curso.

Não só os ACS se beneficiarão dessa aprendizagem, mas a equipe toda e, em última instância, o próprio sistema. Como explica Ary Fialho, “para os profissionais de saúde que estão acostumados a trabalhar com usuários de drogas é muito importante a parceria com os ACS para que possam conhecer as comunidades onde estão trabalhando. Esse é um dos grandes benefícios da união entre os profissionais que trabalham com usuários de drogas e os ACS”, explica.

O começo de tudo

A redução de danos teve início na Inglaterra, em 1926, quando se estabeleceu como princípio médico a possibilidade de prescrever legalmente opiáceos para os dependentes destas drogas, entendendo esta ação como parte do tratamento e não como uma gratificação da dependência à droga.

Nos anos de 1980, a política de ajudar os usuários de drogas injetáveis a fazer um uso seguro das seringas para prevenir a transmissão, por exemplo, da hepatite, consolidou o princípio da redução de danos, que teve sua importância comprovada nas grandes campanhas para a prevenção do contágio do HIV, também entre usuários desse tipo de drogas.

Em breve, haverá um curso adaptado às necessidades dos outros integrantes das equipes da Estratégia Saúde da Família. Boa aula e boa prática!